A humanidade é um grande garimpo. O que aparece é lama, cascalho e pedra sem valor. No meio, de raro em raro, há pedras preciosas e pepitas, misturadas com tudo. Há quem desista, “ora aí só tem barro, que sujeirada”, logo de saída, ou depois de uma busca frustrante. Mas há quem se aplique, quem procure e encontre. É preciso educar os olhos, apurar os sentidos, pra perceber uma pedra de valor, uma pepita, envolvida na lama, no cascalho humano. Não é difícil, eu as tenho encontrado, sempre, em todos os meios e coletividade,
Somos mesmo complexos e variados. Mas somos, também, ignorantes de nós mesmos. Cegos de consciência, tateamos no escuro, aprendendo com a dor, colhendo frutos que plantamos sem nem perceber. Aprender, essa é a tarefa. Pra isso existimos e é o que levamos da vida. Alguns sabem disso, outros sentem. Poucos, é claro. A maioria anda por aí, superficializada, induzida ao desinteresse, à inércia, ao seguir as ondas, sem perceber a fonte dos seus próprios valores, sem perceber os próprios condicionamentos, muitas vezes no cárcere da indiferença, do egocentrismo, do apequenamento do mundo. Essa maioria não pode entender a angústia, o vazio que assalta implacável, a cada silêncio, a cada encontrar consigo mesmo.
A preciosidade humana tem uma característica própria, única, e é o que me faz acreditar na diversidade infinita desse trabalho de lapidação. Diferente da preciosidade mineral, exclusiva, a preciosidade humana contagia. Uma luz pode acender várias, e essas passam a acender outras. A diferença entre uma pessoa iluminada e outra ignorante não é tão abissal quanto nos parece. Em essência, são a mesma coisa - às vezes, um leve toque produz o brilho. Taí o trampo, esse é o trabalho. Pra mim, é isso o que faz a vida valer a pena. Aprender e passar, deixar os toques pra que alguém os aproveite em seu trabalho/caminho. Não espero ver tudo pronto, do jeito que sonho. Mas preciso andar neste sentido. Não tenho a ingenuidade de plantar pra mim, planto pra dar valor à minha vida.
Nada é estático, tudo muda. Não há milênios pra trás? Também os há pra frente. As previsões apocalípticas visam desestimular qualquer movimento de mudança mais incisivo. Não há extermínio. Pode haver hecatombes, sim, mas não o extermínio. E se houvesse essa possibilidade, isso seria mais um motivo pra lutar. Sentar e se acomodar como os usufruintes alienados, não quero condenar ninguém, mas eu teria vergonha. De mim mesmo.
Prefiro tratar com pessoas que possuem algum terreno fértil em suas consciências, com essas dá pra trabalhar. E ajuda a fertilizar e desenvolver a minha própria, que é o que eu mais preciso. As mudanças, as revoluções, se fazem no dia a dia, internamente, sem detrimento das lutas externas, de grupo, dos posicionamentos, das manifestações e apoios solidários, das reivindicações justas, do esclarecimento cotidiano.
Nem todos estão acomodados. Nem todos almejam o desfrute e o prazer materiais como finalidade de vida. Nem todos se deixam condicionar por uma mídia tão poderosa que forma valores, costumes, opiniões, sempre em benefício de empresas e em detrimento do desenvolvimento real do ser humano e da sociedade. São poucos, ainda, é verdade. É um garimpo. Mas eu percebo a formação de muitos veios, espalhados por aí.
Um veio (vêio), no garimpo de minerais, é onde se encontram grande quantidades de pedras, ou ouro, num lugar só, a sorte grande do garimpeiro. No meio humano, já vi muitos veios preciosos, funcionando dentro da coletividade, de todos os tipos, formas e qualidades. Com o tempo, fui percebendo o fenômeno da evolução espalhada e, aparentemente, desconectada. O trabalho está sendo feito. Sem anúncio, sem alarde, em toda parte, em todos os níveis. Sem que se perceba e é bom que assim seja. A estrutura dominante está pronta pra esmagar qualquer ameaça de mudança, venha das ruas, dos grupos, dos gritos, através do terrorismo, do combate direto ou indireto, explosivos ou informações. Esse grande esquema só não está preparado pra consciência. Por isso tanto investimento em entretenimento, em condução da opinião pública, em idiotização, em infantilização pela mídia da mentalidade geral. Assim, roubam os direitos fundamentais da maioria e atiram grande parcela da população na ignorância, na pobreza e na miséria. O mandamento moral, agora, é conscientizai-vos uns aos outros. Esse é o trabalho que está sendo feito. Sem controle aparente, aparentemente espontâneo.
Participar desse trabalho é necessário a muitos dos que não se contentam com o que a sociedade apresenta como ideal de vida. Pros que não se deixam enganar e se sentem parte dessa coletividade narcotizada. Pros que não se identificam, nem se conformam com essa estrutura social injusta, mediocrizante, manipuladora, mentirosa e criadora de problemas pra esmagadora maioria. E o trabalho começa dentro. Os que se limitam a lutar por mudanças na sociedade, a partir do externo, não desenvolvem em si a força da mudança. Desistem ou se acomodam com a forma sem conteúdo da revolução sem raízes, com verdades impostas e subalternidade cultural.
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